Ivan Antonio

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Ivan Antonio tem publicado seis livros de poesia: Flores em pé de guerra; Eu, sonhador;  O último barco do cais; Bicho solto; Balada para um triste amor; e Mar adentro.

Nesta página, você pode ler um poema de cada uma dessas publicações.

mar adentro

 

Poesias: Ivan Antonio                 Ilustração: Ima Boim

 

MAR ABERTO


Na ilha, vejo a onda solitária trazendo a garrafa.

Há um pequeno bilhete dentro dela.

E no bilhete alguém diz: - me ajuda!

Sou uma ilha, penso.

E de cá, apenas sinto a agonia dos que se perdem

e dos que se jogam mar adentro, pra nunca mais voltar.

Comigo foi assim: eu era um menino

e nem sabia que o mar era como um abismo

Me encantei com a beleza de suas ondas

E, de repente, cercado de água por todos os lados,

tornei-me pedaço de mar, pedaço de areia.

Hoje já nem mais sei quem sou.

Ilha talvez eu seja, mas, se não for,

nada importa, mesmo só…

Sigo amando…

 

 

 

flores em pé de guerra

Poesias: Ivan Antonio            Ilustração: Belchior, Hélio Castilio

 

PROVOCA(N)ÇÃO

 

O poema faz careta

dá a lingua à polícia

e sai correndo pelas ruas.

Invade o Senado e desafia o Congresso

a provar que nele não há

                                corrupção.

Paquera a moça no ônibus

e calcula os mortos

                        na construção do metrô.

Fica encabulado

           com o milagre dos pães

e escreve a Jesus

                       pedindo a formula

da multiplicação.

Faz tudo isto

       porque não pode ser preso

nem indiciado.

Não tem soldado que o prenda

nem tem bala

               que o mate.

O soldado assustado

                    tenta prendê-lo

mas as algemas não cabem

                                    nas mãos do poema.

Chama o sargento nervoso

que tenta matá-lo

mas o poema gargalha

e diz que o fuzil

                   é bem menor que a palavra.

Por fim, aparece o comandante

                       chefe do batalhão

e manda novamente prender o poeta

porque para prender o poema  

                               não há exército

nem há capitão.                                                                   

                              


eu, sonhador

 

Poesias: Ivan Antonio                 Ilustraçãõ: Hélio Campo, Roberto Canudos

 

SORRIA


Sorria!

Porque não existem mais guerras

e as flores de Hiroshima voltaram a nascer.

Não tenha medo!

Pois não teremos mais marginais

porque o governo está se preocupando

com o menor abandonado.

Pra que chorar?

Se não existem mais torturas

nas penitenciárias do meu país.

Alegria!!!

Somos todos humanos e ninguém mais

nos julga pela cor.

Até que enfim!

A humanidade está em paz, porque os homens

não fabricam mais armas.

Liberdade!

Os pássaros cantam felizes, porque não correm

mais o risco de extinção.

Os peixes nadam contentes, porque lugar de poluição

não é no mar.

Mas…

Se nada disso estiver acontecendo, não ignore.

Sou um sonhador!

Meu Deus! Pra onde vamos???

o último barco do cais

 

Poesias: Ivan Antonio

 

O COMEÇO DO MUNDO


No começo não existia nada

nem átomos

          como dizem os cientistas

                     (não acreditem neles).

 

Adão e Eva

           é pura ficção

coisa de Deus

              contando histórias às criancinhas.

Não sou sábio

          nem um monge budista

mas disso eu entendo.

Naquele tempo

            se é que existia tempo

                   existia apenas uma musa

de olhos cor-de-mar

          mas o mar também não existia,

foi criado depois.

Lembra aquela história

Deus criou isso no primeiro dia

          aquilo no segundo dia,

                      esqueça!

O mar é outra história

verdade mesmo

            é a minha musa

com seus cabelos pretos

                        e a sua boca carnuda.

De onde ela veio?

         Garanto que não veio do macaco.

Só sei que

            primeiro minha musa

                        depois a poesia

                                    e depois eu.

eu criei tudo.

bicho solto

 

Poesias: Ivan Antonio

 

DESEJO


Eu queria saber

Fazer uma  poesia retada

Dessas que a gente lê e diz:

Cacetada! Acertou na veia,

Mas a porra não sai

E fica só se mostrando

Uma palavra bonita ali,

A outra feia pra caralho!

O que é que vão dizer de mim?